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Uso da máquina para impulsionar a reeleição — expediente que Bolsonaro acionou com superlativo impacto fiscal e do qual Dilma também se valeu em menor grau — geralmente se dá meses antes do pleito

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O presidente Lula em evento no Palácio do Planalto — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O “pacote de bondades” que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem anunciado, com destaque para o reajuste de 15% do Bolsa Família, ocorrem a menos dias da eleição do que costuma ser o adotado por presidentes que tentam um novo mandato. O uso da máquina para impulsionar a reeleição — expediente que Jair Bolsonaro (PL) acionou há quatro anos com superlativo impacto fiscal e do qual Dilma Rousseff (PT) também se valeu em menor grau — geralmente se dá meses antes do dia do voto. Cientistas políticos avaliam que o efeito eleitoral pró-petista depende de as medidas conseguirem se sobrepor ao cenário político conturbado, dominado pela crise do Supremo Tribunal Federal (STF), além de serem sentidas pelos beneficiados.

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Com as bondades, o presidente tenta mudar o noticiário a cerca de duas semanas do primeiro turno, num momento em que vê o principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), encurtar a distância.

Além do Bolsa Família, que passará de R$ 600 para R$ 691, Lula divulgou nos últimos dias que o SUS vai disponibilizar canetas emagrecedoras para casos específicos. Como mostrou o colunista Lauro Jardim, a benesse foi concebida a despeito do alerta de que a oferta terá um custo de R$ 8 bilhões por ano e dificultará ainda mais o arranjo das contas públicas. Ontem, no Rio, o presidente apresentou também um plano de combate à “bandidagem” que disse ser exemplar do que quer fazer em todo o país.

— Em 2022, foram uma série de medidas adotadas por Bolsonaro, com clara intenção eleitoral. Nesse sentido, ele abriu a porteira para esse tipo de excrescência fiscal e eleitoral. Lula está alinhado a isso — avalia o cientista político Carlos Melo, do Insper. — O que o diferencia é, talvez, por estar mais próximo da eleição. Isso, claro, podemos classificar como o temor eleitoral pela movimentação das pesquisas nos últimos dias. Então, a diferença não é de mérito, menos ainda de valor, mas de timing.

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De Dilma a Bolsonaro
Há quatro anos, a cerca de 100 dias do primeiro turno eleitoral, Bolsonaro apresentou uma proposta de emenda à Constituição classificada como “PEC das bondades” ou, para quem apontava o risco fiscal, “PEC kamikaze”. O rombo estimado era de R$ 41 bilhões, fora do teto de gastos. O Supremo Tribunal Federal (STF) consideraria o pacote inconstitucional dali a dois anos, mas, na ocasião, a aprovação no Congresso fez com que o governo subisse o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, um aumento de 50%.
A partir dali, o então presidente foi melhorando a avaliação de governo, que estava em baixa. Nas pesquisas Quaest, a avaliação negativa passou de 47% para 38% em menos de dois meses, na pergunta que permite ao entrevistado classificar a gestão como positiva, negativa ou regular.
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No Ipec, com as respostas binárias aprova ou desaprova, Bolsonaro demorou a se recuperar, o que aconteceu ao longo da própria eleição. Começou a campanha com 37% de aprovação e acabou com 44%. Não foi o suficiente para derrotar Lula, mas o então presidente conseguiu reduzir a desvantagem durante o período eleitoral e ter uma derrota por margem apertada.
Medidas anunciadas antes da eleição por Dilma. — Foto: Arte / O Globo
Medidas anunciadas antes da eleição por Bolsonaro. — Foto: Arte / O Globo
Medidas anunciadas antes da eleição por Lula. — Foto: Arte / O Globo
O que chama atenção, no caso recente de Lula, é o ineditismo no fato de estar com dificuldade para melhorar a aprovação do governo durante a campanha. O padrão histórico mostra que os incumbentes veem o índice subir, e não apenas na esteira do uso da máquina: o próprio espaço que têm no período para propagar os feitos da gestão os ajuda a convencer os eleitores de que fizeram um bom trabalho nos anos anteriores.
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Em 2014, Dilma também anunciou ajuste no Bolsa Família durante o ano eleitoral, em abril. À época, o aumento foi de 10%. Pela série do Ibope, a petista não sentiu imediatamente o efeito positivo. Foi na própria campanha que a aprovação ao governo registrou um saldo positivo mais favorável. Popular até 2013, Dilma começou a entrar em crise com as manifestações de junho daquele ano, que criaram problemas para governantes das diferentes esferas federativas. Mesmo assim, reelegeu-se.
As novas políticas de Lula se somam ao que já vinha sendo promovido no primeiro semestre. O Desenrola 2.0, por exemplo, foi apresentado em maio como forma de encarar o problema do endividamento das famílias e turbinar a aprovação do governo. O impacto, contudo, durou pouco. Depois de um bom momento embalado por isso e pela crise de Flávio no caso Master, o petista voltou a oscilar negativamente nas pesquisas.
Recentemente, houve ainda a revogação da “taxa das blusinhas”, criada em 2024 pelo próprio governo Lula a fim de impulsionar as vendas da indústria nacional a partir da taxação de compras on-line de até 50 dólares. Embora seja defendida pelas empresas brasileiras, a cobrança de imposto nas compras internacionais era impopular, já que encarecia a aquisição de importados.
Outras medidas incluem o Gás do Povo, que alcança cerca de 15 milhões de famílias, e o Luz do Povo. Na esteira da Guerra do Irã, também foi formulado, em parceria com os estados, o subsídio do diesel para conter a alta no preço do combustível, tradicional preocupação de incumbentes em ano eleitoral. Como o Brasil é muito dependente do transporte rodoviário de cargas, a alta no combustível impacta os preços de produtos transportados.
Cenário imprevisível
Na visão do cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV EAESP, o fato de o anúncio de Lula ser feito a poucos dias do primeiro turno dá menos espaço para que resultados sejam colhidos. Ele pondera, no entanto, que a eleição está muito polarizada e com noticiário ruim para os dois lados, o que cria um clima de imprevisibilidade:
— Esse show de notícias ruins tem refletido na volatilidade das próprias pesquisas eleitorais. O eleitor indeciso está cada vez mais confuso, e acho que só vai definir mesmo em função do que vai acontecer até a véspera da eleição.
No Rio, ontem, ao lado do governador interino Ricardo Couto e do prefeito da capital, Eduardo Cavaliere (PSD), o candidato à reeleição anunciou um projeto de integração com as forças locais na segurança pública, tema citado como maior preocupação pelos brasileiros nas pesquisas. Ele classificou o modelo como “exemplo para o que vamos fazer no país” com a PEC da Segurança e citou três eixos: sufocar a logística e a mobilidade do crime, retomar territórios ocupados pela “bandidagem” e fortalecer a capacidade dos municípios de enfrentar o problema. Além de atacar uma pauta prioritária, Lula busca reduzir a desvantagem que teve no Rio na última eleição, quando perdeu para Bolsonaro no estado por mais de 1 milhão de votos de diferença.
(Colaborou Fernanda Alves)
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