Aparentemente, Lula teria pela frente uma missão possível. Afinal, a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não chegou a dois pontos percentuais. Mas a pequena diferença na disputa presidencial esconde um resultado bem mais desfavorável ao governo. A essa pequena diferença soma-se uma derrota expressiva nas eleições para o Congresso e para os governos estaduais. O conjunto do resultado indica um desejo de mudança e um voto de protesto alimentado pela sensação de que a vida não vai bem, da porta de casa para dentro.Foi a vida cotidiana, para usar uma ideia cara ao geógrafo Milton Santos, que pesou contra Lula, porque sua candidatura teve dificuldade de dialogar com o dia a dia dos brasileiros. As urnas reafirmaram um velho axioma: quando predomina a sensação de mal-estar, o eleitor tende a punir quem governa; quando prevalece a percepção de melhora, tende a recompensá-lo.O recado foi particularmente claro entre os que “acordam cedo, pegam ônibus, abrem a lojinha, fazem bico, pagam boleto e procuram descobrir por que o dinheiro acaba antes do mês”, para usar uma frase de Renato Meirelles, autor de A Nova Classe Média. Não por acaso, a chamada classe C se inclinou fortemente para a oposição.Endividamento, inadimplência e custo de vida, sobretudo o preço dos produtos nas gôndolas dos supermercados, ajudam a explicar um voto que adquiriu caráter quase plebiscitário sobre a maneira de governar de Lula e de seu partido.A zona de desconforto espalhou-se pelo país e alcançou diferentes segmentos sociais. Isso sugere que uma das bases políticas e econômicas do lulismo, a expansão do consumo apoiada por renda, crédito e políticas públicas, perdeu capacidade de responder às novas aspirações. O Brasil mudou. Mobilidade, prosperidade, autonomia econômica e possibilidade de ascensão passaram a ocupar lugar importante nas expectativas de uma parcela expressiva da população.A esse movimento, o terceiro governo Lula não ofereceu resposta convincente. A prosperidade, anseio particularmente forte da nova classe média emergente, não esteve no centro de sua agenda com a intensidade exigida pelo novo ambiente social.Tudo isso ajudou a alimentar um antipetismo que não se confunde integralmente com bolsonarismo. Tratar os dois fenômenos como equivalentes e concluir que os brasileiros se tornaram majoritariamente de extrema-direita pode simplificar a leitura da eleição, mas não ajuda a compreender os problemas enfrentados pela candidatura de Lula.Entre eles está a dificuldade de perceber que o Brasil atual, marcado pela fragmentação social, pela força das redes e pela permanência de valores conservadores, não é o mesmo do primeiro governo Lula. A precariedade dos serviços públicos e a presença insuficiente do Estado em muitas áreas reforçaram o papel da família, das igrejas e de outras redes comunitárias como espaços de proteção e pertencimento.Parte da esquerda também teve dificuldade de compreender essas mudanças. O desejo de empreender, conquistar autonomia econômica e ascender pelo próprio esforço passou a conviver, nas camadas populares, com a demanda tradicional por proteção social. Tratar essas aspirações simplesmente como manifestação de “neoliberalismo”, ou estigmatizar o chamado “pobre de direita”, não ajuda a compreender esse novo eleitor.A questão agora é saber se o recado do primeiro turno foi assimilado ou se Lula insistirá na estratégia adotada na reta final da campanha, ampliando seu arsenal de “bondades” na esperança de recuperar, por esse caminho, o favoritismo que perdeu ao longo da disputa.As primeiras reações indicam que ainda falta uma leitura mais realista do resultado. Ganham destaque explicações como o avanço da direita no mundo e a chamada “síndrome dos incumbentes”. Esses fenômenos existem, mas não explicam tudo. É preciso compreender o que há de específico na ascensão da direita no Brasil: um movimento que não é apenas ideológico, mas também de agenda, impulsionado por problemas concretos da economia doméstica, dos serviços públicos, da segurança e do desgaste institucional.Sem essa compreensão, Lula continuará navegando contra a maré no segundo turno e terá dificuldade de apresentar uma mensagem que empolgue. O risco, já discutido dentro de sua campanha, é apostar novamente no medo.Há razões para duvidar da eficácia do argumento de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro implicará perda automática de conquistas sociais. Muitas dessas políticas já foram incorporadas pela sociedade como direitos e instrumentos permanentes do Estado, e não como concessões exclusivas deste ou daquele governo.Costuma-se dizer que, em política, a derrota é órfã. Quando o resultado decepciona, é comum procurar responsáveis imediatos. A escolha de um bode expiatório oferece uma saída confortável porque evita o exame das causas estruturais do fracasso.É nesse contexto que Sidônio Palmeira passou a ser colocado no centro das críticas. A comunicação pode ter cometido erros, mas transformá-la na explicação principal preserva Lula de uma discussão mais profunda sobre o desgaste de seu projeto político. Não se trata de decretar o fim do lulismo, mas de reconhecer que sua capacidade de se apresentar como força conectada ao futuro dá sinais claros de exaustão.Esse é um dos obstáculos para que a candidatura reencontre um eixo. Se a campanha tratar o resultado apenas como falha de marketing, deixará intacta a verdadeira questão: qual projeto Lula oferece para um país socialmente diferente daquele que o levou ao poder pela primeira vez?A margem para errar no segundo turno é pequena. Uma tentação será reduzir a disputa à comparação entre as biografias dos dois candidatos. Outra será transformar a eleição numa batalha definitiva entre “democracia e fascismo”.As duas estratégias podem produzir algum efeito eleitoral, mas carregam o mesmo risco: o de passar novamente ao largo do essencial. As urnas não pediram uma guerra de biografias nem uma cruzada ideológica. Pediram respostas para uma vida que ficou mais difícil. Se Lula não compreender isso, poderá descobrir, tarde demais, que não há marketing capaz de conter uma correnteza quando ela muda de direção._____________Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.




