Na matemática, um módulo livre é um módulo que tem uma base, isto é, um conjunto gerador que é linearmente independente. Todo espaço vetorial é um módulo livre, mas, se o anel dos coeficientes não for um anel de divisão (não for um corpo no caso comutativo), então existem módulos não livres. Dado qualquer conjunto

S

{\displaystyle S}

e um anel

R

{\displaystyle R}

, existe um

R

{\displaystyle R}

-módulo livre com base

S

{\displaystyle S}

, que é chamado de módulo livre sobre

S

{\displaystyle S}

ou módulo de combinações lineares formais sobre

R

{\displaystyle R}

dos elementos de

S

{\displaystyle S}

. Um grupo abeliano livre é precisamente um módulo livre sobre o anel

Z

{\displaystyle \mathbb {Z} }

dos inteiros.

Definição Para um anel

R

{\displaystyle R}

e um

R

{\displaystyle R}

-módulo

M

{\displaystyle M}

, o conjunto

E ⊆ M

{\displaystyle E\subseteq M}

é uma base para

M

{\displaystyle M}

se:

E

{\displaystyle E}

é um conjunto gerador para

M

{\displaystyle M}

; ou seja, cada elemento de

M

{\displaystyle M}

é uma soma finita de elementos de

E

{\displaystyle E}

multiplicados por coeficientes em

R

{\displaystyle R}

; e

E

{\displaystyle E}

é linearmente independente: para todo conjunto

{

e

1

, ... ,

e

n

} ⊂ E

{\displaystyle \{e_{1},\dots ,e_{n}\}\subset E}

de elementos distintos,

r

1

e

1

+

r

2

e

2

+ ⋯ +

r

n

e

n

=

0

M

{\displaystyle r_{1}e_{1}+r_{2}e_{2}+\cdots +r_{n}e_{n}=0_{M}}

implica que

r

1

=

r

2

= ⋯ =

r

n

=

0

R

{\displaystyle r_{1}=r_{2}=\cdots =r_{n}=0_{R}}

(onde

0

M

{\displaystyle 0_{M}}

é o elemento neutro de

M

{\displaystyle M}

e

0

R

{\displaystyle 0_{R}}

é o elemento neutro de

R

{\displaystyle R}

). Um módulo livre é um módulo com uma base. Uma consequência imediata da segunda metade da definição é que os coeficientes na primeira metade são únicos para cada elemento de

M

{\displaystyle M}

. Se

R

{\displaystyle R}

tem número de base invariante, então, por definição, quaisquer duas bases têm a mesma cardinalidade. Por exemplo, anéis comutativos não nulos têm número de base invariante. A cardinalidade de qualquer (e, portanto, de toda) base é chamada de posto do módulo livre

M

{\displaystyle M}

. Se esta cardinalidade for finita, diz-se que o módulo livre é livre de posto finito, ou livre de posto

n

{\displaystyle n}

se for sabido que o posto é

n

{\displaystyle n}

.

Exemplos Seja

R

{\displaystyle R}

um anel.

R

{\displaystyle R}

é um módulo livre de posto um sobre si mesmo (seja como um módulo à esquerda ou à direita); qualquer elemento invertível (unidade) é uma base. Mais geralmente, se

R

{\displaystyle R}

for comutativo, um ideal não nulo

I

{\displaystyle I}

de

R

{\displaystyle R}

é livre se e somente se for um ideal principal gerado por um elemento que não é um divisor de zero, com o gerador sendo uma base. Sobre um domínio de ideais principais (ex.,

Z

{\displaystyle \mathbb {Z} }

), um submódulo de um módulo livre é livre. Se

R

{\displaystyle R}

for comutativo, o anel de polinômios

R [ X ]

{\displaystyle R[X]}

na indeterminada

X

{\displaystyle X}

é um módulo livre com uma possível base

1 , X ,

X

2

, ...

{\displaystyle 1,X,X^{2},\dots }

Seja

A [ t ]

{\displaystyle A[t]}

um anel de polinômios sobre um anel comutativo

A

{\displaystyle A}

,

f

{\displaystyle f}

um polinômio mônico de grau

d

{\displaystyle d}

neste anel,

B = A [ t ]

/

( f )

{\displaystyle B=A[t]/(f)}

e

ξ

{\displaystyle \xi }

a imagem de

t

{\displaystyle t}

em

B

{\displaystyle B}

. Então

B

{\displaystyle B}

contém

A

{\displaystyle A}

como um subanel e é livre como um

A

{\displaystyle A}

-módulo com uma base

1 , ξ , ... ,

ξ

d − 1

{\displaystyle 1,\xi ,\dots ,\xi ^{d-1}}

. Para qualquer número inteiro não negativo

n

{\displaystyle n}

,

R

n

= R × ⋯ × R

{\displaystyle R^{n}=R\times \cdots \times R}

, o produto cartesiano de

n

{\displaystyle n}

cópias de

R

{\displaystyle R}

como um

R

{\displaystyle R}

-módulo à esquerda, é livre. Se

R

{\displaystyle R}

tem número de base invariante, então o seu posto é

n

{\displaystyle n}

. Uma soma direta de módulos livres é livre, enquanto um produto cartesiano infinito de módulos livres geralmente não é livre (cf. o grupo de Baer-Specker). Um módulo finitamente gerado sobre um anel local comutativo é livre se e somente se for fielmente plano. Além disso, o teorema de Kaplansky afirma que um módulo projetivo sobre um anel local (possivelmente não comutativo) é livre. Às vezes, determinar se um módulo é livre ou não é indecidível no sentido da teoria dos conjuntos. Um exemplo famoso é o problema de Whitehead, que pergunta se um grupo de Whitehead é livre ou não. Como se constata, o problema é independente de ZFC.

Combinações lineares formais Dado um conjunto

E

{\displaystyle E}

e um anel

R

{\displaystyle R}

, existe um

R

{\displaystyle R}

-módulo livre que tem

E

{\displaystyle E}

como base: a saber, a soma direta de módulos de cópias de

R

{\displaystyle R}

indexadas por

E

{\displaystyle E}

R

( E )

=

e ∈ E

R .

{\displaystyle R^{(E)}=\bigoplus _{e\in E}R.}

Explicitamente, é o submódulo do produto cartesiano

E

R

{\displaystyle \prod _{E}R}

(sendo

R

{\displaystyle R}

visto, digamos, como um módulo à esquerda) que consiste nos elementos que têm apenas um número finito de componentes não nulas. Pode-se mergulhar

E

{\displaystyle E}

em

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

como um subconjunto identificando um elemento

e

{\displaystyle e}

com aquele de

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

cuja

e

{\displaystyle e}

-ésima componente é 1 (a unidade de

R

{\displaystyle R}

) e todas as outras componentes são zero. Então cada elemento de

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

pode ser escrito de forma única como

e ∈ E

c

e

e ,

{\displaystyle \sum _{e\in E}c_{e}e,}

onde apenas um número finito de

c

e

{\displaystyle c_{e}}

são não nulos. É chamado de uma combinação linear formal de elementos de

E

{\displaystyle E}

. Um argumento semelhante mostra que todo

R

{\displaystyle R}

-módulo livre à esquerda (resp. à direita) é isomorfo a uma soma direta de cópias de

R

{\displaystyle R}

como módulo à esquerda (resp. à direita).

Outra construção O módulo livre

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

também pode ser construído da seguinte maneira equivalente. Dado um anel

R

{\displaystyle R}

e um conjunto

E

{\displaystyle E}

, primeiro, como um conjunto, definimos

R

( E )

= { f : E → R ∣ f ( x ) = 0

para todos, exceto um número finito de

x ∈ E } .

{\displaystyle R^{(E)}=\{f:E\to R\mid f(x)=0{\text{ para todos, exceto um número finito de }}x\in E\}.}

Nós o equipamos com uma estrutura de módulo à esquerda de forma que a adição é definida por: para

x

{\displaystyle x}

em

E

{\displaystyle E}

,

( f + g ) ( x ) = f ( x ) + g ( x )

{\displaystyle (f+g)(x)=f(x)+g(x)}

e a multiplicação escalar por: para

r

{\displaystyle r}

em

R

{\displaystyle R}

e

x

{\displaystyle x}

em

E

{\displaystyle E}

,

( r f ) ( x ) = r f ( x )

{\displaystyle (rf)(x)=rf(x)}

Agora, como uma função de valor em

R

{\displaystyle R}

sobre

E

{\displaystyle E}

, cada

f

{\displaystyle f}

em

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

pode ser escrita unicamente como

f =

e ∈ E

c

e

δ

e

{\displaystyle f=\sum _{e\in E}c_{e}\delta _{e}}

onde

c

e

{\displaystyle c_{e}}

estão em

R

{\displaystyle R}

e apenas um número finito deles são não nulos, e

δ

e

{\displaystyle \delta _{e}}

é dado como

δ

e

( x ) =

{

1

R

se

x = e

0

R

se

x ≠ e

{\displaystyle \delta _{e}(x)={\begin{cases}1_{R}\quad {\mbox{se }}x=e\\0_{R}\quad {\mbox{se }}x\neq e\end{cases}}}

(esta é uma variante do delta de Kronecker). O exposto acima significa que o subconjunto

{

δ

e

∣ e ∈ E }

{\displaystyle \{\delta _{e}\mid e\in E\}}

de

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

é uma base de

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

. O mapeamento

e ↦

δ

e

{\displaystyle e\mapsto \delta _{e}}

é uma bijeção entre

E

{\displaystyle E}

e esta base. Através desta bijeção,

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

é um módulo livre com a base

E

{\displaystyle E}

.

Propriedade universal O mapeamento de inclusão

ι : E →

R

( E )

{\displaystyle \iota :E\to R^{(E)}}

definido acima é universal no seguinte sentido. Dada uma função arbitrária

f : E → N

{\displaystyle f:E\to N}

de um conjunto

E

{\displaystyle E}

para um

R

{\displaystyle R}

-módulo à esquerda

N

{\displaystyle N}

, existe um único homomorfismo de módulos

f ̄

:

R

( E )

→ N

{\displaystyle {\overline {f}}:R^{(E)}\to N}

tal que

f =

f ̄

∘ ι

{\displaystyle f={\overline {f}}\circ \iota }

; a saber,

f ̄

{\displaystyle {\overline {f}}}

é definido pela fórmula:

f ̄

(

e ∈ E

r

e

e

)

=

e ∈ E

r

e

f ( e )

{\displaystyle {\overline {f}}\left(\sum _{e\in E}r_{e}e\right)=\sum _{e\in E}r_{e}f(e)}

e diz-se que

f ̄

{\displaystyle {\overline {f}}}

é obtido estendendo

f

{\displaystyle f}

por linearidade. A unicidade significa que cada transformação

R

{\displaystyle R}

-linear

R

( E )

→ N

{\displaystyle R^{(E)}\to N}

é determinada de forma única pela sua restrição a

E

{\displaystyle E}

. Como é usual para propriedades universais, isso define

R

( E )

{\displaystyle R^{(E)}}

a menos de um isomorfismo canônico. Além disso, a formação de

ι : E →

R

( E )

{\displaystyle \iota :E\to R^{(E)}}

para cada conjunto

E

{\displaystyle E}

determina um functor

R

( − )

:

Set

→ R

-

M o d

,

E ↦

R

( E )

{\displaystyle R^{(-)}:{\textbf {Set}}\to R{\text{-}}{\mathsf {Mod}},\,E\mapsto R^{(E)}}

, da categoria dos conjuntos para a categoria dos

R

{\displaystyle R}

-módulos à esquerda. Ele é chamado de functor livre e satisfaz uma relação natural: para cada conjunto

E

{\displaystyle E}

e um módulo à esquerda

N

{\displaystyle N}

,

Hom

Set

⁡ ( E , U ( N ) ) ≃

Hom

R

⁡ (

R

( E )

, N ) ,

f ↦

f ̄

{\displaystyle \operatorname {Hom} _{\textbf {Set}}(E,U(N))\simeq \operatorname {Hom} _{R}(R^{(E)},N),\,f\mapsto {\overline {f}}}

onde

U : R

-

M o d

Set

{\displaystyle U:R{\text{-}}{\mathsf {Mod}}\to {\textbf {Set}}}

é o functor esquecido, o que significa que

R

( − )

{\displaystyle R^{(-)}}

é um functor adjunto à esquerda do functor esquecido.

Generalizações Muitas afirmações verdadeiras para módulos livres estendem-se a certas classes maiores de módulos. Módulos projetivos são somandos diretos de módulos livres. Módulos planos são definidos pela propriedade de que o produto tensorial com eles preserva sequências exatas. Módulos livres de torção formam uma classe ainda mais ampla. Para um módulo finitamente gerado sobre um DIP (como

Z

{\displaystyle \mathbb {Z} }

), as propriedades livre, projetivo, plano e livre de torção são equivalentes.

Veja anel local, anel perfeito e anel de Dedekind.

Referências

Bibliografia Adamson, Iain T. (1972). Elementary Rings and Modules. Col: University Mathematical Texts. [S.l.]: Oliver and Boyd. pp. 65–66. ISBN 0-05-002192-3. MR 0345993 Keown, R. (1975). An Introduction to Group Representation Theory. Col: Mathematics in science and engineering. 116. [S.l.]: Academic Press. ISBN 978-0-12-404250-6. MR 0387387 Govorov, V. E. «Free module». Encyclopedia of Mathematics (em inglês) Matsumura, Hideyuki (1986). Commutative ring theory. Col: Cambridge Studies in Advanced Mathematics. 8. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 0-521-36764-6. MR 0879273. Zbl 0603.13001