Ela

Atriz de 69 anos também se prepara para voltar às novelas como uma vilã na próxima trama das 6, "Lá na minha terra"

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A atriz Lilia Cabral — Foto: Mateus Augusto Rubim

É impossível não se acabar em lágrimas ao fim do monólogo “Rita Lee: Balada da Louca”, estrelado por Lilia Cabral. No palco, a atriz revive os últimos dois anos de Rita Lee (1947-2023), da descoberta de um câncer no pulmão até sua morte, em uma interpretação ora divertida, ora sensível, ora poética. E leva a plateia à catarse. “O comportamento dela não era só o de uma cantora que interpreta; mas de alguém que vive, que sente, que explode. Não havia uma canastrice, era tudo verdade”, explica Lilia, em duas horas de entrevista. Após uma celebrada temporada em São Paulo, o espetáculo, baseado no livro “Rita Lee: outra autobiografia” e idealizado por Guilherme Samora, estreia na sexta, dia 9, no Teatro Prio, no Jockey Club, e fica em cartaz até 15 de novembro. Ao se preparar para dar vida a uma das principais artistas da música brasileira, a paulistana de 69 anos mergulhou fundo na história de Rita com o marido, Roberto de Carvalho, na relação dela com os filhos do casal, Beto, João e Antônio, e em suas manias. “Ela era acumuladora. Mas uma acumuladora organizada! Do vaso ao bibelô, em tudo havia harmonia.”

Com mais de 40 anos de carreira, Lilia, assim como a musa do rock nacional, também é alguém visceral, e transporta essa intensidade para seus trabalhos. Muitos deles lhe renderam papéis marcantes e prêmios, como os espetáculos “Feliz ano velho” (1984), “O divã” (2005) e “A lista” (2020) e as novelas “Tieta” (1989), “A favorita” (2008) e “Fina estampa” (2011). No mês que vem, estreia mais uma vilã, Celestina, da nova novela das seis, “Lá na minha terra”. Um legado e tanto para quem precisou batalhar duro e enfrentar um rompimento doloroso com os pais, que não aceitavam a escolha profissional da única filha. “Não mudaria minha vida. Sempre fui corajosa, mas sofri muito, e sozinha, para me libertar”, diz. A seguir, confira os melhores trechos da conversa em que a atriz conta como fez as pazes com o passado e fala da união de três décadas com o economista Iwan Figueiredo, a parceria com a filha, a atriz Giulia Bertolli, de 29 anos, vaidade e envelhecimento.

Lilia veste blazer Andrea Bogosian na Dona Coisa, camisa NV, calça Carol Bassi, gravata Txello Vintage, sapatos Alexandre Birman, brincos Atelier Schiper x Esther Bonder — Foto: Mateus Augusto Rubim

Você e Rita tiveram uma relação pessoal?

Não. Comecei a assistir aos shows da Rita quando entrei na USP, em 1976. Nessa época, a música que bombava era “Mania de você”, e eu queria ver a cantora que eu adorava de perto. Muitos anos depois, em 2012, nos encontramos no programa “Altas horas”. Fiquei nervosa quando a vi saindo do camarim vindo em minha direção. Nessa hora você entende o papel do fã. Foi muita emoção.

Nesta autobiografia, a cantora faz um balanço de quem era. O que descobriu no processo?

A gente sempre soube da irreverência, do deboche, da inteligência, mas ela tinha um lado atriz. O comportamento não era só o de uma cantora que interpreta; mas de alguém que vive, que sente, que explode. Não havia uma canastrice, era tudo verdade. Depois, descobri que ela era acumuladora, mas uma acumuladora organizada! Do vaso ao bibelô, havia uma harmonia. Já Roberto e os filhos eram o coração dela. Não poderia fazer a Rita se não fosse com o meu coração.

A peça retrata também a descoberta da doença e a iminência da morte. Mudou sua forma de lidar com o tema?

Não gosto de pensar sobre a morte. Sou a caçula de uma família de imigrantes, que tiveram filhos tarde. Vi essas pessoas indo embora muito cedo. Quando eu tinha 29 anos, minha mãe morreu. Convivo com a morte desde os 10. Primeiro, minha avó, depois, meu padrinho... Dizem que minha mãe me olha, me protege. Isso me acalanta. Sou católica, gosto de rezar.

A atriz usa blazer e broche Coven na Dona Coisa, brincos maiores Atelier Schiper X Esther Bonder, brincos menores e pulseira Carla Amorim — Foto: Mateus Augusto Rubim

Falando em família, você já declarou ter sido uma criança agressiva. por quê?

Dentro da minha casa havia uma repressão forte. Eu não podia nada. Se fosse na festinha, precisava voltar cedo. Não sei se, de repente, minhas atitudes eram muito duras. Sou extremamente perfeccionista. Meus pais não aceitavam eu querer ser atriz, principalmente meu pai. Mudei-me para o Rio sozinha em 1984, sem família, sem apoio, e precisei “me fazer” em todos os sentidos. Foi duro.
Como era a relação com seu pai?
Eu voltava para São Paulo, mas ele me impedia de entrar na casa dele. Minha mãe ia até a minha madrinha para eu vê-la. Ele me punia. Quando você está no ringue, como faz para entender que não merece todos esses socos? Era injusto. Foi muita análise até perceber que era um problema dele. Mas por muito tempo essa indignação andou comigo. Só voltei para casa mesmo quando minha mãe ficou doente. Meu pai me perdoou? Não! Ele pensou: ‘ah, não vou cuidar sozinho, ela vai sofrer’. Era uma forma de me castigar mais um pouco.
Conseguiu ressignificar tudo isso?
Muita coisa. Em uma entrevista para o Pedro Bial, sobre vilãs, relembrei a cena em que a Marta, de “Páginas da vida”, expulsa a filha de casa. Ela foi ao ar em 25 de julho, aniversário do meu pai. Tudo o que senti ao gravar, isso me ajudou a entender... E trouxe uma resposta. Eu tinha resolvido.
Lilia Cabral veste blazer e broche Coven na Dona Coisa, calça Mixed, sapatos Alexandre Birman, brincos (maiores) Atelier Schiper x Esther Bond e Carla Amorim (menores) — Foto: Mateus Augusto Rubim
Como sentiu a morte da sua mãe? havia culpa por não ter passado mais tempo com ela?
Na infância, eu desenhava uma casinha, uma árvore, com uma raiz grande. Quando a mãe morre, passa a serra e acabou. A árvore continua, mas você não tem mais raízes. Sobre culpa, não. Ela era muito submissa. Tenho a consciência de que fiz tudo o que podia. E não mudaria minha vida. Sempre fui corajosa, mas sofri muito, e sozinha, para me libertar.
A Giulia nasceu quando você tinha 39 anos, sem referências maternas. O que aprendeu com ela ao longo da vida?
Ela me ensinou a ser mãe de verdade. Você lê um livro, o que adianta? Pensava: “se eu errar, vou aprender de um jeito que nunca mais vai acontecer”. Mas soube escutá-la. Giulia tem uma postura destemida como atriz, um pouco diferente de mim. Ela está seguindo agora a carreira de roteirista. Não há nada que a censure.
Sua personagem em “a favorita” era vítima de violência doméstica e essa é uma realidade que só cresce no brasil. Como avalia esse cenário?
As coisas sempre aconteceram, mas não eram faladas. As mulheres ficavam em casa sofrendo. Quando fiz a Catarina, inspirei-me, em certa medida, na minha mãe. Será que ela poderia ter se separado do meu pai? Sim, mas não conseguia. Muitas não conseguem, e agora tudo vem à tona.
Você e Iwan estão casados há mais de 30 anos. O que sustenta a união quando a paixão não é mais novidade?
O sentimento de cumplicidade sempre é algo novo. O olhar que temos um para o outro não é o mesmo de cinco anos atrás. Tem coisas que se resolvem mais rápido, outras que são mais difíceis... Mas, ao mesmo tempo, a gente sabe o quanto vale a pena em termos de família, de vivermos um universo afetivo gostoso.
A atriz veste sobretudo e calça APT 03, camisa Carol Bassi, brincos Carla Amorim e sapatos Alexandre Birman — Foto: Mateus Augusto Rubim
Já fez terapia de casal?
Fiz, em outro relacionamento, mas não dá certo (risos). Tem uma frase do “Divã” que diz: “O fim nunca é bom; se fosse bom, seria o começo”. O casal da ficção tentou uma terapia, mas olha... Dificilmente vai para frente.
Tem medo de envelhecer?
Não. Vivi muito tempo com muita gente com mais de 50. Então, envelhecer é bonito, é significativo, é filosófico. Olha quanta coisa eu fiz! É sinal de que a gente aproveitou a vida. E temos que aproveitar ainda mais.
E procedimentos estéticos? Faz?
Não sou contra, mas não faço. Uma vez fiz um laser, foi uma fortuna e não vi diferença. Nunca coloquei Botox. Morro de medo de anestesia no dentista, aquela picadinha é a morte. Imagina enfiar no rosto? Se eu me olhar e vir que não tenho mais essas rugas, vai ser esquisito.
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