Mario Sabino

Davi Alcolumbre é mais um que jurava não conhecer o larápio antes de o galo cantar três vezes, mas não é o que diz o celular de Vorcaro

Mario Sabino
25/09/2026 11:44
Vinicius Schmidt/ Metrópoles
Davi Alcolumbre. Por mais experientes que sejamos, nós sempre nos deparamos, aqui e ali, com a nossa própria ingenuidade.
Eu, por exemplo, acreditava que não poderia haver pior presidente do Senado do que Renan Calheiros.
Em investida contra o Senado, no já longínquo janeiro de 2019, quando o inquérito das fake news era apenas o bebê de Rosemary, escrevi:
“No seu desenho atual, o Senado é uma excrescência num país generoso em excrescências. Se é para mantê-lo dessa forma, que os senadores sejam obrigados, ao menos, a usar toga, como na Roma Antiga. Eu adoraria ver o sempiterno Renanus Calheirus de toga, com implante capilar e fios pintados de acaju, destilando o seu incomensurável amor por Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff ou Jair Bolsonaro. Renanus Calheirus ama tanto o Brasil que acha que tudo deve mudar para para que tudo fique como está.”
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Bons tempos, os de Renan Calheiros, quando a ironia ainda servia de bálsamo. Nestes de Davi Alcolumbre, nem mais com ela podemos contar, ou talvez bem menos.
O preâmbulo, vulgo nariz-de-cera, é para dizer que os jornalistas Robson Bonin e Laryssa Borges tiveram acesso a mensagens trocadas entre o presidente do Senado e Daniel Vorcaro.
Davi Alcolumbre é mais um que jurava não conhecer o larápio antes de o galo cantar três vezes, mas a relação entre ambos aponta para certa, como definir?, brotheragem — ainda dentro dos limites da heterossexualidade tóxica, por favor, e brotheragem suposta, de acordo com os bons modos jornalístico.
“Entre os dois, a intimidade ultrapassava de longe o limite da camaradagem. O senador recorria ao banqueiro até para resolver questões prosaicas, como tentar identificar a fonte de um jornalista. O banqueiro recorria ao senador quando precisava abrir certas portas. Festas e encontros privados fortaleceram essa conexão”, relatam os jornalistas.
No dia em que Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, em fevereiro de 2025, “Vorcaro enviou um texto ao senador dando-lhe os parabéns e desejando sucesso no cargo. ‘Fala meu amor’, respondeu o parlamentar. ‘Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Sou seu irmão. Pra vida toda’, continuou. O banqueiro responde à gentileza com cinco emojis de coração e juras: ‘E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer.’”
O que, exatamente, Vorcaro disse que nunca esqueceria em relação a Alcolumbre?
Talvez o fato de o fundo de previdência dos servidores do Amapá (Amprev), cuja direção estava nas mãos de cupinchas do presidente do Senado, ter aportado R$ 400 milhões, o equivalente a 5% do seu patrimônio, em letras financeiras podres do Banco Master. É assim que se compra e se vende amor verdadeiro (apud Nelson Rodrigues).
De acordo com os jornalistas, Alcolumbre é mencionado em conversas entre Fábio Faria e Vorcaro, ocorridas em outubro de 2023:
“No acervo, há dezenas de mensagens em que são combinadas festas com a participação de renomadas autoridades. Uma delas foi organizada para atender o presidente do Congresso. Vorcaro acerta os detalhes com Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro. ‘Aquela de 3 metros estará la, Fabio’, escreveu o banqueiro, num grupo de WhatsApp batizado de Macallan, a famosa marca de uísque escocês. ‘A dupla né. Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina’, ironizou Faria. ‘Kkkkkk. Bonde do tigrão’, completou Vorcaro.”
Três meses depois de tomar posse na presidência do Senado, o tigrão Alcolumbre barrou a instalação de uma CPI no Senado para investigar a fraude gigantesca perpetrada pelo larápio no sistema financeiro nacional.
Defender os amigos a qualquer preço, ou talvez a algum preço pessoal (US$ 30 milhões, Vorcaro disse em proposta de delação; o presidente do Senado nega), é uma especialidade que Alcolumbre elevou ao estado de arte.
Veja-se, por exemplo, o caso dos pedidos de impeachment de ministros do Supremo, em especial os do amigão Alexandre de Moraes, outro a desfrutar do amor verdadeiro de Vorcaro, mas sempre daquele que ousa dizer o seu nome (Moraes, que aparece em mensagens do larápio citado como “o careca”).
Não haverá meio de ministros do Supremo serem alvo de impeachment enquanto Alcolumbre estiver aboletado na presidência do Senado. É urgente tirá-lo de lá para que o país recupere o mínimo de institucionalidade. Sou ingênuo ao dizer nisso, eu sei.


