O Adeus do Marujo é um bordado produzido em 1910 pelo marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata. A obra integra o acervo do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, em São João del-Rei, tendo sido doada à instituição por Antônio Manuel de Souza Guerra. A peça constitui uma das duas toalhas bordadas atribuídas a João Cândido durante seu período de prisão na Ilha das Cobras, após os acontecimentos de novembro de 1910.
Contexto histórico O bordado foi realizado no contexto da repressão à Revolta da Chibata, movimento protagonizado por marinheiros da Marinha do Brasil contra os castigos corporais e as condições de trabalho impostas à tripulação. Após a revolta, João Cândido foi preso com outros participantes, permanecendo encarcerado na Ilha das Cobras, onde produziu bordados que articulam elementos simbólicos relacionados à experiência do cárcere e à vivência marítima.
Descrição A obra consiste em uma toalha de rosto em tecido, possivelmente linho, bordada manualmente com linhas nas cores cinza e vermelho, utilizando a técnica de ponto-corrente. A composição apresenta grande complexidade iconográfica, reunindo elementos simbólicos e inscrições textuais. Entre eles destacam-se:
iniciais “JCF” (João Cândido Felisberto); o título O Adeus do Marujo; a palavra “Liberdade”; a inscrição “ordem”; a data “XXII de novembro de MCMX” (22 de novembro de 1910); as iniciais “F. D. Martins”, possivelmente referência a Francisco Dias Martins. No centro da composição, duas mãos entrelaçadas são atravessadas por uma âncora, ladeada por ramos vegetais. A cena é acompanhada por representações de mangas de uniforme naval: uma associada a oficialato e outra a marinheiro. Em artigo acadêmico, o historiador José Murilo de Carvalho oferece duas hipóteses de interpretação possíveis. Na que considera menos provável, a obra poderia ser um gesto de despedida ao marinheiro Francisco Dias Martins, figura importante na Revolta da Chibata. Nesse caso, a mão com botões e galões seria a do próprio João Cândido, se autopromovendo simbolicamente à patente de almirante. A outra possibilidade é a que o bordado represente uma despedida de João Cândido da Marinha, sendo a manga com decorações de almirante possivelmente uma representação de Alexandrino de Alencar, almirante e ministro da Marinha que tinha o marinheiro como seu protegido. O autor também ressalta que as palavras "ordem" e "liberdade" estavam presentes em uma faixa hasteada no encouraçado Minas Gerais durante a Revolta da Chibata.
Técnica e estilo O bordado é caracterizado como produção de arte espontânea, realizada por um autor não profissional, com traços simples e expressivos. A peça apresenta acabamento em renda de abrolhos e franjas, típico de trabalhos têxteis do período.
Proveniência O bordado foi oferecido por João Cândido a Antônio Manuel de Souza Guerra, conhecido como “Niquinho Guerra”. Antônio fazia parte do 51o Batalhão de Caçadores de São João del Rei, na condição de praça. O batalhão foi convocado ao Rio de Janeiro para reforçar a segurança da cidade devido à Revolta da Chibata, posteriormente sendo ocupando da guarda dos presos do levante. Antônio Guerra fez amizade com João Cândido e se interessou em comprar o bordado que o marinheiro fazia, representando o encouraçado Minas Gerais. João Cândido prometeu dar-lhe como presente mas, provavelmente por causa de sua transferência para o Hospital dos Alienados, acabou não o fazendo. No lugar, ofereceu duas toalhas bordadas, sendo O Adeus do Marujo uma delas. Posteriormente, a peça foi incorporada ao acervo do Museu Thomé Portes del-Rei, onde permanece preservada.
Conservação A obra encontra-se em estado de conservação considerado regular, apresentando manchas de umidade e sinais de deterioração associados à ação de insetos. Intervenções posteriores incluíram costuras de reparo e a colocação em moldura com vidro, visando sua proteção. No ano de 2020, o bordado passou por um processo de restauração feito pelo Laboratório de Conservação e Pesquisa Documental da Universidade Federal de São João del Rei. Entre os danos identificados, o tecido apresentava amarelamento por acidez, possíveis manchas de umidade e furos causados pela ação de traças. Foi feito um processo de desacidificação na obra, além de reparos para tapar os furos. Posteriormente o bordado foi colocado em uma nova moldura.
Importância O Adeus do Marujo constitui um importante registro material da Revolta da Chibata, articulando elementos visuais e textuais que remetem diretamente ao episódio histórico e às tensões vividas pelos marinheiros. A presença de datas, nomes e símbolos reforça seu caráter narrativo e documental, distinguindo-o de outras produções do mesmo conjunto. A peça foi analisada como fonte histórica em artigo acadêmico do historiador José Murilo de Carvalho, tendo posteriormente esse artigo dado nome a seu livro Pontos e Bordados: Escritos de História e Política, publicado em 1998 pela Editora UFMG. Os bordados de João Cândido (nos quais se inclui O Adeus do Marujo) foram escolhidos pela equipe de curadoria da 34° Bienal de Arte de São Paulo para serem expostos como um dos enunciados, objetos simbólicos que pontuariam a narrativa da exposição. A obra O Adeus do Marujo inspirou e deu nome a um livro ilustrado produzido pela artista plástica baiana Flávia Bomfim, que utiliza a técnica do bordado sobre fotografias para contar a história de João Cândido. A obra foi publicada no ano de 2022 pela Pallas Editora, tendo sido premiada no Nami Concours, concurso internacional de ilustração para livros realizado na Coréia do Sul. Os bordados de João Cândido inspiraram a exposição de arte "Amor Cândido Bordado e a Revolução das Linhas e das Agulhas", realizada em 2024 no Museu Regional de São João del Rei e que apresentou a obra de bordadeiras da região.
Ver também Amor Bordados de João Cândido João Cândido Felisberto Revolta da Chibata Cultura material
Referências
Bibliografia Reis, Roberto Batista (2014). Inventário dos Bordados de João Cândido Felisberto (Relatório). São João del-Rei: Prefeitura Municipal de São João del-Rei
Ligações externas Os bordados do marinheiro João Cândido em Youtube